A corrida e a cidade

A corrida transforma minha relação com a cidade. De diferentes formas, em diferentes momentos. Nas férias de dezembro, fui passar um tempo com meus pais. Cidade pequena, sem guia, sem Beira Mar ou muitos corredores, até onde sabia. Não tinha expectativas de conseguir correr. Veio então a primeira surpresa. Minha mãe, em conversas aleatórias com alguém, disse que eu procurava um guia para poder correr por lá. E conseguiu.
Correr com alguém novo, às vezes, é quase como ter um primeiro date. Com a Débora foi deliciosamente simples. Natural como eu gostaria que muita coisa fosse. Passar pelas ruas da minha infância correndo, livre e fazendo o que eu gosto, foi sublime de um jeito difícil de descrever. Foi como me encontrar com a cidade de uma forma completamente nova. Os sons, cheiros, lugares, tudo passando por mim enquanto meus tênis sentiam o chão de onde cresci e meus pulmões reclamavam do esforço inesperado de lutar contra um ar bem mais seco do que o de Floripa. O ar seco, o calor. Muito calor, mesmo quase anoitecendo. O cansaço. A conhecida terra vermelha. Correr enquanto o sol vai sumindo no céu como poesia e alivia o vento quente no corpo todo.
A paz de correr no meio do nada, em uma estrada que era só nossa por muitos minutos. O barulho dos passos, das histórias e risadas, contrastando com os sons dos animais pastando ali perto. Depois correr pelo centro da cidade, em direção a minha mãe e o sorvete de menta e blue ice. Correr do lado dos carros, em uma realidade tão diferente. Na rua de casa, em direção ao portão, ao cachorro e a uma outra parte de mim. Um reencontro.
Depois de ir embora para longe, tentando me encontrar, voltei mais uma vez. Talvez um pouco outra pessoa. Ainda perdida, mas de outra forma. Confusa, sem conseguir fazer as pases entre as partes de mim que vivem a quilômetros de distância. Me reencontrei um pouco mais com a minha cidade quando conheci as suas ruas correndo. Fazer algo tão importante para mim onde cresci acalmou os conflitos, pacificou as fronteiras. Correr e conversar com a Débora foi não só inspirador, mas também um presente. Logo volto para tomarmos tereré e subirmos aquele morro correndo.

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