Por onde eu corro: Pista da UFSC

“Mas deve ser muito chato ficar dando voltas ao redor de uma pista”, eu disse em certa ocasião. Ainda não corria. Ainda não sabia. Quantas vezes eu lembraria dessas palavras enquanto meus tênis batiam ritmados no chão duro da pista e meu cérebro tentava convencer meu corpo que faltava pouco. A UFSC é casa. A pista de atletismo também. Desde que pisei lá pela primeira vez naquele dia nublado, até todas as vezes que me perdi no caminho, são muitos momentos e sensações. Construções também.
Assim como o Parque de Coqueiros, correr em pista é sinônimo de sofrimento. Mas um sofrimento mais feliz, a sua maneira. Também é rotina, mas daquelas que facilitam as outras rotinas. Sair da aula pra correr é um respiro. O cheiro da pista azul, que eu achava ser vermelha. O barulho dos quero-queros sempre conversando ou brigando, inclusive conosco. As conversas e risadas. Estar em um lugar separado do mundo.
Deitar na grama se tornou o ritual de antes do treino e o prêmio do depois. Fiz amigos. Corri com amigos. Participei da primeira vez de novos guias. Alguns felizmente quiseram ficar. Coordenamos. Sincronizamos. Corremos. Parceria. Encontros. Transformações. O guia que me soltou. O guia que me ajudou a seguir.
Aquele treino escaldante no sol das 10 da manhã e aquele depois da chuva, pisando nas poças de carvão. Teve aquele que tivemos que desviar do quero quero dando rasante em nós também. Pós treino com suco e pinhão. Ir pra casa feliz, mesmo pegando trânsito. “Você não está cansada”, o guia me lembra. Tento acreditar. Em qual volta estamos? Não sei. Como vou fazer isso mais cinco vezes? “Pronto!” Na verdade não. Mas já? “Bora, Ana!” Falta ar. A garganta seca. Mais rápido. Mantém o ritmo. É difícil continuar empurrando o próprio corpo. Pernas pesadas. Metas também. Não quero mais. “Vamos só mais uma?” Propõe o guia. Concordo. Funcionou, fomos até o final. “Na curva a gente acelera.” Tá bom. O treino do recomeço. Do desabafo. Do desafio. O treino de aniversário, a melhor comemoração possível com bolo e tudo. Cada conquista tem um gosto único. Um pedaço de história. Suor. Dor. Quase lágrimas querendo sair. Sorrisos inteiros.
Nos raros dias sem tiros, correr cantando Legião na chuva, conversando sobre a vida, discutindo conceitos aleatórios. “O treinador tá olhando.” Arruma a postura. Sorriso aberto. Sem forças pra falar. Concentra. Uma voz na beira da pista que traz um pouquinho mais de energia. “O ritmo tá bom. Vamos manter.” O tênis cheio de carvão. A mente cheia de tanta coisa. “Não importa, só faz o seu”, Diz o guia. Continuo. Ofegante. Mais perto do fim. Parece que posso voar. Parece que posso ir pra um outro lugar. “Prepara.” Desistir? Só mais um pouco.
Vamos, não é aquecimento”, Provoca. Eu sei. Me deixa. Correr com amigos é tão bom. Baita dupla. “Agora é com o coração.” Curva. Reta. Essa curva nunca chega? Tão longe. Tão difícil. Mais uma volta. Depois outra. Melhor não contar mais. Só preciso passar pelo trecho de vento que vai ficar mais fácil. Leve. Nada leve. Demora. Reta final, acelera. Linha de chegada. Mas não tem mais perna. Tem coração. Tem muito coração ainda. Agora eu entendo. Hoje, mais do que nunca, dou razão para quem me disse “sabe o que é chato? ver essa pista linda e não poder correr.”

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