Correr para casa

Nos encontramos na frente de casa. Sorriso, abraço, bom dia. Bora? Dia nublado, então não precisava ser tão cedo. O sempre esperado treino do fim de semana chegou. Hora de decidir. Vamos onde? Discutimos as opções. Que tal ficar por aqui e subir uns morros? Sugere o guia. Ele me convence. Negociamos o primeiro morro, o maior. Aquecimento, claro.
Ainda acho que as manhãs tem um ar diferente do resto do dia. “Quando você quiser.” Sair correndo é uma sensação muito boa. Com calma, afinal ainda temos 1 hora de diversão. Seguimos pela rua de casa, acostumando o corpo, acalmando a mente aos poucos. Que diferente correr aqui. Um diferente muito bom. A pista é estreita, alguns esbarrões. “Encosta, vem perto de mim.”
Curva pra Coqueiros. Pista fechada no domingo, muito espaço. Que delícia. Ventinho bom. Mas lá vem a subida. Respira. A voz do guia é calma, dando dicas. Descer é tão gostoso. Adoro correr no meio da rua, é como subverter a ordem das coisas. Cheiro de mar. Concentra. É tão bom viver a cidade assim. É passar pelos lugares e pessoas de uma forma única. Nada mais me traz isso. Tanta novidade me distrai. Assim é mais fácil. Subida. Importante é não parar. Passos curtos, panturrilha queima. Não parar. Nunca acaba. Não parar.
Cabeceira da ponte. “Vamos até o fim da Beira Mar Continental?” Fica pra próxima. Hora de voltar. Mas como voltar? Ainda é cedo demais pra drama. Cadê aquele vento agradável? Que abafado. Ritmo de conversa, nada como uma rodagem livre para alegrar o domingo. Conversar com o guia que virou um amigo faz tempo me ajuda a manter o foco. Colocar a mente em outro lugar e continuar. E esse restaurante aqui? As pernas pesam. Conversamos. Falta tanto. A discussão está tão interessante. O ritmo também. Corremos. Encontrar outros corredores, ciclistas e caminhantes é um tipo singular de motivação. A rua é toda nossa. Os quilômetros passam. As preocupações também.
Rua de casa de novo. “Estou vendo o seu prédio.” Literalmente só preciso correr até a minha porta. Ótima razão para não parar. Nem acredito. Cansada, mas tão satisfeita. Abraço suado da parceria de uma conquista compartilhada. Obrigada. Até a próxima. Difícil demais subir 3 andares de escada, mas tão, tão satisfeita.
Quando digo que correr ressignifica minha relação com a cidade, também é disso que estou falando. Agora, quando vou de ônibus para o Centro, penso no percurso de forma completamente diferente, porque já fiz boa parte dele correndo. Meu corpo já sentiu esses quilômetros. E o coração também. Afinal, nada como correr para casa.

Novembro de 2019.

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