“Morre, mas não para de correr”

“Ansiosa?” Pergunta o guia na largada. Respondo “não muito”. Mas é claro que estou. Ele também. Aquecemos, brincamos e rimos, como de costume. Era uma brincadeira participar dessa prova também, até que não mais. Até que domingo chegou e eu estava lá. Eu corria há pouco tempo, mas a chance era boa demais. Empurrãozinho do universo? Talvez.
Desde a inscrição até o passeio para pegar o kit com as amigas, tudo tinha sido uma novidade deliciosa. Primeiras vezes são inesquecíveis por tantos motivos, a maioria bobos demais para contar.
A antecipação é como uma energia que crepita no ar. De repente, largamos. As pessoas, as palmas. A sensação de sair correndo, tentando acertar a respiração e o peito cheio de espectativas com o ritmo dos meus tênis no asfalto. Tudo novo e bom. Gigante. Ouvir tantas pessoas correndo. Ser parte. Finalmente, parte.
O guia cumpre a promessa de ficar falando comigo quase o tempo todo. Funciona. Esqueço que acho que não consigo. Depois lembro. Falta só metade. Ou metade ainda? Parece tanto. Não é. Respira fundo. E a ponte? A paisagem, o mar. As pessoas. Subidinha. Descer é tão legal. Água é um alívio. Primeira vez que corro aqui. Um desconhecido dá uma força ocasionalmente. Sorrimos. Corremos. O desconhecido da largada tinha razão sobre eu passar calor de mangas compridas. Estreante é assim. O sol está radiante. Eu também.
Cheguei até aqui, onde nunca estive antes. Novas distâncias. Novas sensações. Concentra. Mais um pouco. Falta pouco, mas não parece. O guia me anima, diz para chegarmos bem. “Morre, mas não para de correr.” Quase. Aceleramos. A sensação de linha de chegada não tem igual. Tropeço. Não deu tempo de avisar, nem de sentir nada além do chão. O locutor brinca que eu estou tão cansada que até caí. Ele não faz ideia. O guia me levanta. Poderia ser também uma metáfora. Parceria. O sorriso não cabe no rosto. Abraço, medalha. A primeira. Corri os primeiros 5K, de muitos. Eu sabia. Sublime correr. Sublime compartilhar. As pessoas que eu gosto, as parcerias. “Falei que você conseguiria.” As pernas cansadas de um jeito único que às vezes ainda lembro. Começava ali também a minha paixão por melancia docinha e gelada no fim das provas. Foi a melhor festa de aniversário. Eu entrava nos 21 correndo. Correr para a mudança não tem tradução.
“Morre, mas não para de correr.” Acho que morri. Mais de uma vez. E nasci de novo.

Prova: Corridas do Bem Farmasesi – Etapa Florianópolis
Data: 16/09/2018
Local: Beira Mar Continental
Distância: 5K

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