Se o mundo acabasse hoje

Era só a segunda vez que eu corria na areia na minha curta vida de corredora, o que naturalmente não tornou as coisas nem um pouco mais fáceis no Costão do Santinho. O tempo que, naquele sábado, não parecia estar em um humor muito bom também não. Principalmente quando uma chuva forte desabou sobre a cidade algumas horas antes da prova e não parou. Pegamos o caminho, e o trânsito intenso, até a praia do Santinho conversando, ouvindo o show da Pitty no Planeta Atlântida e a chuva martelando por todo lugar. “O mundo acaba hoje e eu estarei correndo”, Penso em meio a lembranças do meu irmão.
O vento lá fora é tão gelado quanto achei que seria. Na verdade mais. Bom que estamos tão em cima da hora que não dá muito tempo para sentir frio. Quando achamos nosso grupo em meio às várias pessoas, o aquecimento já está acontecendo. Entramos no círculo. Abraços rápidos e molhados nos amigos até que estamos indo para a largada. Todos animados, inclusive a chuva, que não para. O vento ameaça arrancar a estrutura da prova. Aguardamos. Me admiro como tem tanta gente, mesmo nessas condições. Mas entendo. Afinal, estou lá também. E só penso em poder correr. A chuva nos deixa largar, até mesmo dá uma trégua. “Respira!” Lembra um guia e amigo, pouco antes. Vou precisar.
Contagem regressiva. Contamos juntos. Largar é sempre lindo, mas no Costão do Santinho é uma festa ainda maior, com direito a fogos de artifício. Impossível não sair sorrindo. Correr com cuidado para não tropeçar. Acostuma. Cumprimentar os amigos naquela alegria de início de prova, quando as coisas ainda são tranquilas. É tão bom correr com essa guia, tão natural e gostoso. Com algumas pessoas, a identificação é imediata. O frio vai passando, o corpo esquenta. Tentamos desviar das poças, é difícil. Ouvir as ondas acalma. Subir as dunas é como lutar contra areia movediça. E perder todas as vezes. Muita gente, pouco espaço. Tropeços, seguimos.
Metade? Ainda não. A voz da guia é emocionada ao descrever as luzes das lanternas de cabeça dos corredores colorindo ainda mais a paisagem. Estar tão feliz a ponto de gritar. É bonito demais. Mas as panturrilhas reclamam do esforço novo.
“Presta atenção só no som do mar”, penso, enquanto meus tênis encharcados e cheios de areia trilham caminhos no ritmo da música de mais cedo. Falta pouco. Foco. Não parar. Que sorte estar ali. Adoro correr à noite. Parar? Posso ouvir a chegada. A guia diz que estamos bem. É verdade. Tão perto. A areia fofa atrapalha muito o objetivo de chegar correndo minimamente bem. Mas chegamos. Cruzamos a linha enquanto toca anunciação. “Tu vens, tu vens.” As pernas com novas dores, o peito com novos amores. O abraço é tão quente. Chove outra vez. “O mundo acaba hoje e eu estarei correndo com você.”
E o tempo? A corrida também pode ser leve. Esperamos para ir embora em baixo de um guarda-sol compartilhado, o suor secando no corpo. Penso em dormir logo que chegar em casa, porque ainda pretendo fazer o resto da quilometragem do fim de semana no domingo bem cedo, por causa do calor. Mas como? Dormir cedo, não correr. Porque eu fui, mesmo com sono. Foi ótimo. Afinal, se o mundo acabasse hoje, eu queria estar correndo.

Prova: Night Run do Costão do Santinho 2019
Data: 02/02/2019
Local: Praia do Santinho
Distância: 5K

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