Voltar para casa

“Bem-vinda de volta à casa” diz a guia quando nos abraçamos. Correndo pouco, alguns meses sem participar de provas. Era exatamente assim que eu me sentia. Voltando para casa. “Saudade”, respondo. Abraço apertado. Chegamos cedo, com o sol se pondo e as conversas da carona. Tempo para pensar. Ainda poucas pessoas, tempo de sobra. Caminhamos na areia, procurando uma tenda que ainda nem foi montada. Esperamos, conversamos. Caminhamos um pouco mais. O guia e amigo descreve a paisagem. Ganho massagem de brinde. Meus ombros tensos agradecem muito. Os banhistas deixam a praia que, aos poucos, se enche de corredores. Observo admirada essa transição.
De repente, me vejo sozinha em meio às pessoas chegando. Cumprimentos. Sou como uma ilha, naquele movimento para o qual não faço nenhuma falta. Encontro um banco para sentar. Observo. As pessoas conversam, se encontram. Me encontro. Sozinha. Cercada de gente. Penso. Ouço. Absorvo. É bom estar de volta. As ondas cantam ao fundo. O vento devolve a canção. Conversas sobre corrida por todo lado. O tempo passa. Respiro fundo.
Meu guia chega. O companheiro dos treinos no sol de meio dia. Ele me anima. Estamos prontos. Largar é sempre incrível. Também quero fogos. Passar pelos amigos, sorrisos. As pernas cheias de energia. Ainda. Sempre demora para acostumar, procurar e achar o ritmo. O guia diz para manter. “O ritmo tá bom”. Corremos. Agradeço pela areia mais dura, que não dura muito. O tempo faz esquecer o sofrimento das dunas, mas lembrar é bem rápido, basta alguns passos. O tênis afunda, a determinação também. É cedo demais. Falta bastante.
Trilha estreita, muitas pessoas. Esbarrões. Risos. Pequenos trechos da vida de outros corredores. Compartilhamos aquele momento fugaz sob as luzes coloridas das lanternas de cabeça. A noite está linda. Onde faz a volta? Perdida. Melhor assim. Descer é a melhor sensação. Ainda assim o medo de tropeçar. O medo. O braço do guia é apoio. A voz com sotaque carioca também. Seguimos.
E o ritmo? Não como gostaria. Seguimos. Agora é reta. A música dá ânimo, correr ao lado do mar também. “Não para.” É tentador. Sempre é. Também é maravilhoso correr à noite. E o vento fresco. E as pernas em movimento. O fato de chegar até aqui com meu próprio corpo. Quase na chegada. Quase. Encontrar os amigos é incentivo. Quase. Areia irregular. Tropeço no nada. Bato o mesmo joelho de sempre no chão. Dói. A mesma areia arranha as palmas das minhas mãos. Levanto. Corro. O guia se preocupa. Parceria. Mas tá tudo bem. Afinal, a chegada é como voltar para casa.

Prova: Night Run do Costão do Santinho 2020
Data: 01/02/2020
Local: Costão do Santinho
Distância: 5K

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s