Distanciamento

Colocar um casaco quentinho em uma tarde gelada de sol, lembrança de outros invernos. Descer as escadas com passos curtos e medo. Esquecer que não pode encostar no corrimão. Lembrar. Esquecer de novo. Querer encostar em tudo o tempo todo, mas se afastar. Respirar na máscara. A rua, que não encontro há meses, continua a mesma e irremediavelmente diferente. Mas nem chego até lá. Nos encontramos adequadamente distantes. Eu nem saio para fora da porta, que seguro com o corpo para não fechar. Já esqueci de novo que não pode. Tarde demais, então continuo.
Sua voz, mesmo mascarada, me conforta. Sorrimos pela pequena grande alegria de estar no mesmo lugar, nesses tempos estranhos em que vivemos. Alegria raríssima. Conversamos sobre tudo e nada, naqueles doces momentos roubados de fora de uma realidade em que não encontramos mais ninguém só para conversar. Quem diria que seria tão bom encontrar alguém assim? O novo normal, eles dizem. É duro demais acreditar que a distância é o novo normal, quando tocar é tão bom. Não só bom, necessário.
O rosto não está acostumado a ficar coberto. A máscara ameaça escorregar algumas vezes. Sorrir é diferente assim. Os braços que não podem abraçar se aquietam, já que não há jeito. Nos espantamos com o movimento, mas de tristeza já falamos muito. Precisamos rir um pouco também. Sentir que não estamos sós. Felizmente, não estamos. Sentimos as mesmas coisas. Compartilhamos as angústias e os pesos sob aquele céu tão raro. Mais leves. Preenchemos de afeto a distância que não nos é permitido ultrapassar.
Você sobe na bicicleta, eu sinto gratidão por essa pequena fuga. Nos despedimos protocolarmente distantes, mas entrelaçadas como uma metáfora. Sua visita trouxe um pouco mais de ânimo para os meus solitários dias cansados. Você vai, mas sua companhia fica um pouco mais comigo. Sobe as escadas ao meu lado, pertinho como ninguém mais pode fazer, me lembra de não encostar no corrimão. Lava tudo minuciosamente como um ritual. E o abraço? Senti na comida deliciosa que você me trouxe. Dói tanto. Tanto. Mas tem alguns poucos dias em que dói tão menos que até parece estar tudo bem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s