Circuíto

As palmas das minhas mãos empurram o chão como se, assim, eu pudesse chegar a algum lugar. Não posso. Mas o impulso é suficiente para me levar a parte seguinte do movimento quase automaticamente. Desço o corpo, puxando as pernas. A sombra do medo de escorregar faz companhia. Dou impulso novamente e salto com entusiasmo. Entusiasmo demais. Parece até fácil. Depois lembro que ainda é o primeiro exercício da primeira série e me acalmo. Mas o movimento agora tão fluido também me orgulha.
O coração bate com força contra o peito, enquanto falta fôlego e coordenação. Tento concentrar. Dá certo quando não tento. Pensar demais sempre foi o meu problema. O corpo sabe o que fazer. Só não parar. Só não pensar. Volto ao chão em um movimento quase ensaiado. O corpo quente sentindo o impacto do contato gelado. As palmas novamente apoiadas, mas agora buscando estabilidade ao erguer repetidamente o quadril. Como pode um lado ser mais fácil que o outro? Sempre é.
O tempo passa cruelmente lento. Vasculho a mente em busca de alguma distração em que me agarrar. Às vezes encontro palavras como essas, às vezes não. Às vezes só encontro uma vontade quase irresistível de descansar os músculos e o coração. Quase sempre resisto. Também perco, de vez em quando. Pensamentos passam, O tempo também. Nem sempre é tão fácil assim fazer força com os músculos certos. Relaxar os ombros. Ah, os ombros. Manter a posição por poucos segundos que duram horas inteiras. Mas às vezes também passam surpreendentemente rápido. Pessoas e situações vem e vão nesses instantes fugazes, em que o corpo faz força para aguentar o próprio peso. O peso da existência desaparece NO ESFORÇO DE SE SUSTENTAR. Descanso de mim. No intervalo, deixo o corpo cair e a bochecha encontrar o conforto do chão. Mas não pode durar muito.
Calculo o tempo já sem esforço. Fico na posição, com o resto de energia renovado da última série. Mergulho de novo em direção ao chão, os braços prontos para segurar minha queda e amparar minha entrega. Presa, busco a poesia dos dias aparentemente iguais. A evolução é um marco temporal eficaz nesse momento em que o tempo parece perder o sentido. A dor nos músculos que diminui depois aumenta de novo também. A rotina do treino traz algum tipo necessário de propósito. Traz um controle que posso finalmente ter nas mãos. A satisfação do “feito” é doce demais. Busco a minha força na poesia do meu corpo em movimento, em contato com esse chão agora tão conhecido que me enraíza no agora e também me permite fugir. Acho que, afinal, estou chegando a algum lugar. E ficando mais forte também.

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