Presente

“Estar presente”, penso, sentada no chão da minha sala onde tenho pensado tanto sobre a vida nos últimos meses. A voz calma do professor me chama de volta e me joga do pensamento para a ação. A janela bate com o vento forte. Os carros passam ilusoriamente perto demais. Levantar os braços é como levantar pesos. Reaprender a respirar é difícil. Prestar atenção nas coisas certas também.
“A respiração do gato”, diz o professor. Adoro esses nomes. “No seu ritmo”. Eu busco meu ritmo, mas não sei se já o encontrei. Ou se o aceito, na verdade. Descanso a testa no chão, é tão bom. Esqueço de deixar as tensões também, mas quando lembro é um alívio. Deixar os planos. Os não planos. A total impossibilidade de se fazer planos nesse momento. O agora é tão grande. Gigante. Quase assustador demais para ser compreendido.
Abro os dedos, procurando a estabilidade que só o chão pode dar. Força, para levantar o peso do próprio corpo e também para deixar no chão o peso que não é meu. Gosto de estar atenta. Mas diferente do que sou. Alerta para sentir o movimento que reverbera. Embora nem tudo seja palpável. Mas tudo é movimento. Prender. Esperar. Depois soltar o ar, mas não só. Cresço. Solto. Alcanço. Afundo. Pode ser fácil. Leve. Desconectar é um processo. Conectar-se é outro. Gosto de sentir que meu corpo sabe o que fazer. E estar ainda assim atenta. Mas não demais. Nunca demais.
Ainda não tenho o equilíbrio necessário para ser uma árvore. Tudo bem, essa serenidade se conquista. Começo por aprender a afixar minhas raízes no chão e respirar, buscando força nas palmas unidas no peito cheio de sonhos. Tento. Sou montanha, inabalável. Mas agora quero ser árvore. Paciência. Eu sinto. E sentir é tudo, naquele momento. Os músculos tremem, algumas certezas também. É a inspiração que recarrega. Finalmente atenta a mim.
Estar presente. Mas como? Se o passado é uma sereia que me seduz com promessas doces de fuga. Inúteis, mas ainda assim doces. E o futuro parece um grande campo infértil de possibilidades, mas onde cada dúvida é como o som de mil sinos. Como não querer escapar para esses lugares irreais? Escorregar. Esquecer do sentido. É tentador. Assim como desistir. Estar presente. O agora me agarra um pouquinho por vez. Às vezes respiro, às vezes falta fôlego. Também me perco, me abandono. Volto um pouco pra me procurar no que deixei pelo caminho. Mas às vezes sou o cachorro olhando para baixo. Por pouco tempo, às vezes, sou presente.

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