Yoga e o saber de si

Minhas mãos abertas encontram novamente o chão firme. Dedos espalhados, palmas em contato. Na busca por um pouco mais de estabilidade, sinto. Penso sobre sentir. O professor fala sobre abrir mais os dedos. Abrir o peito e os ombros. Não é a toa que o equilíbrio tantas vezes vem quando não nos fechamos. Mesmo que a entrega derrube, às vezes. Muitas vezes.
Sentir o próprio corpo é um ato de atenção. Atenção que se treina diligentemente. Ela foge para todos os lados em segundos de descuido. Trazer de volta. Carinho. Respirar antes, avançar depois. Aos poucos. Sentir que um movimento se compõe de muitas partes de mim. Que cada parte do meu corpo faz muitas coisas ao mesmo tempo. Ainda estou começando a entender. Estar atenta. Sentir os músculos fazendo seu papel, tentando segurar um pouco a postura. Às vezes, seguro demais ou as coisas erradas. Soltar. Tão difícil quanto abrir é soltar. Mas respirar é um constante exercício de não prender mais nada.
“Postura”, tantas vezes me disseram. Eu me esforçava, mas não entendia. As referências me escapavam por entre as mãos vazias. Meu olhar sempre estava errado. O pescoço alto ou baixo. O queixo projetado menos ou mais. Os ombros protegendo o peito do mundo. Era tudo distante do que eu conhecia. Instruções que todo mundo parecia compreender não funcionavam no meu corpo. Tentei. Não fazia sentido. Me encolhia e voltava aos hábitos que entendia. Mas os outros, eles não.
Estendo os braços e penso no meu corpo, agora repleto de linhas que traço em mim, como intrincados desenhos, para entender meu próprio padrão e alcançar o horizonte do equilíbrio. Longe, mas tão mais perto. Construo a geometria dos meus traços. Das pernas na largura dos ombros, dos braços paralelos ao chão, dos pés na linha da cintura e infinitos outros. Entendi algo simples. As minhas referências primeiro estão em mim. Depois no ambiente. Depois. Nascem no meu corpo em relação ao mundo, não ao contrário. Como entender algo diferente disso? Algo que não sinto e literalmente não vejo. E os outros? cresceram ouvindo que nós que deveríamos nos adaptar ao mundo e seus padrões a todo custo. Crescemos, aliás.
Tento levantar os quadris. O professor fala de empurrar o peito para baixo, não para a frente, o que não tinha me dado conta que estava fazendo. Mas agora entendo essa instrução. Busco ela em mim. Talvez um tempo atrás seria mais difícil. É difícil quando se passou anos perseguindo um padrão sem sentido, que sequer existia de verdade. Que, distante, eu não podia tocar e também não tocava em mim. Tão inatingível e injusto quanto certas expectativas das quais me cobri. Yoga e o saber de si. As fronteiras do meu corpo agora são minhas. E há tantas ainda por descobrir.

B

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