Esquecer para lembrar

Passar por lugares antes cotidianos é como um reencontro. Um pouco estranho, mas bom. Respirar fundo no limite da máscara, enquanto até o vento contra soa como uma carícia bem-vinda. Tudo parece igualmente novo e antigo. Tudo parece demais para absorver de uma vez só. Como é fácil esquecer, penso. O asfalto me recebe como se nunca tivesse passado tempo algum. Mas passou. E o conhecido agora tem novas formas. Às vezes sutis, mas ainda assim novas.

Eu, que sempre tive tanto medo do novo, ainda sei o que fazer. O medo. Ele também mudou. As pernas encontram o ritmo, as informações passam. Passamos. Sinto. O corpo lembra dos movimentos. Os músculos tem memória própria, mas esqueço o quanto dói. Lembro. Diante de tudo, achei que seria difícil. Não foi. Leve e fácil. Um lugar confortável, mesmo em desconforto. E é tão bom voltar por alguns minutos roubados. Tão bom. As palavras flutuam para longe de mim, mas sinto. Talvez seja sobre isso.

o corpo também lembra do suor nos lábios e do gosto das lágrimas, da garganta fechada E DO PEITO EM FOGO. Aqui fica a lembrança. Ficam as lembranças. Os ombros tensos sustentam as dores. O peito incansável acolhe os amores. O corpo que sente o mundo guarda as próprias impressões. Em si. Em mim. Esquecer é fácil, mas não totalmente. Nunca totalmente. É bom lembrar como é estender a mão e imediatamente alcançar um braço guia.
Sem precisar falar. Lembrar como é segurar a corda e sentir o amigo logo ali do outro lado. Correr junto é um exercício de tantas coisas, inclusive estreitar os laços. E matar a saudade imensa, como o mar que sussurra e dança as ondas com calma, a nossa passagem. O cheiro de sal ultrapassa a máscara. O ar falta, o peito galopa. Mas o sorriso se sente na voz. Ofegante de vida. Vida que continua, mesmo com o medo. E o abraço que não pude dar? Lembro. Mas logo preciso esquecer, porque fica para a próxima.

Estar distante até tudo parecer cada vez mais distante. Distanciamento. É fácil esquecer, penso de novo, mesmo sabendo que lembrar é mais ainda. Mas esquecer, às vezes, dói menos. Ajuda a calar as vontades antes urgentes que não podem ser satisfeitas. Ajuda a passar os dias entre quatro paredes, sonhando com os quatro cantos da cidade. Ajuda a focar em terminar o dia bem. Ajuda a focar no que importa para sobreviver aos longos períodos confusos que vem e vão. Mas, no primeiro pedaço de oportunidade que surge, lembro. Como se nunca tivesse esquecido. De volta ao meu chão e as minhas janelas conhecidas, espero. Esqueço, até poder lembrar de novo.

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