O corpo e as nossas batalhas

“Como pode ser tão difícil sustentar o peso dos próprios braços”, penso, enquanto tento manter os meus mais ou menos alinhados. Sinto como se equilibrasse pesos. Depois penso em todas as coisas que precisamos equilibrar o tempo todo. Nos meus ombros imediatamente tensos quando corro com alguém novo. No cachorro olhando para baixo que não olha totalmente para baixo. O corpo tem seus mistérios. Não eram os braços, afinal, mas todo o resto tão assustadoramente conectado.
Aliás, levantar os braços a cima da cabeça é bem mais fácil. As palmas querem se encontrar, os ombros querem imediatamente subir até as orelhas. Talvez buscando algum conforto no contato. Mas não pode. Não agora. A meio caminho de um hábito, reviso todas as pequenas partes do corpo que precisam ser lembradas, até mesmo as fáceis de esquecer, como mirar o olhar para o horizonte certo. Prestar atenção, mas não demais. Nunca demais, porque o controle ainda é uma ilusão perigosamente tentadora, na qual caio mais vezes que consigo contar. Para que contar?
Não são só as minhas coxas e quadríceps reclamando da posição. Não é só a força e flexibilidade que está sendo construída bem aos poucos. É claro que cansa, mas tem outro incômodo. Demoro algum tempo para perceber. Essa postura pede mais. Alguma coisa diferente que não sei se posso dar ainda. Ela é quase um convite ao confronto, enquanto cada músculo do meu corpo tem fugido de qualquer coisa parecida com um conflito sempre que possível. Às vezes mesmo quando inevitável. Não é a toa que se chame guerreiro. E que eu seja aquela que se esconde. Ah, o medo.
Mas guerreiros não se escondem. Nem guerreiras. “São posturas vigorosas, que energizam”. Exposta. Às vezes inadequada, mas sobretudo, exposta. O peito aberto, os braços longe do corpo, contando com a minha força e o chão para manter tudo no lugar. Respiro. Um outro tipo de confronto. O do meu corpo, e suas batalhas cuidadosamente guardadas, com o mundo. Penso em quantas vezes desejei ser invisível. E quantas consegui. Em quantas tantas ainda quero não ser notada.
Nunca ser notada. Aprendi a me encolher. A me abraçar. Sentir a segurança do meu corpo ao meu alcance, embrulhar a vulnerabilidade que me constitui. O outro, distante. Mas ainda assim vista. Sempre vista dos jeitos errados. O corpo e suas batalhas. O corpo e as nossas batalhas. Tudo bem, asseguro para mim mesma, ajeitando a postura e o queixo para a frente. Afundo. Tudo bem. Agora entendo melhor as coisas. E, mais importante, meu corpo está aprendendo novas formas de lutar. Pode olhar para mim agora. Estarei pronta.

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