A corrida e o fogo

A corrida é um esporte exigente, penso às vezes. Não só para os músculos e a respiração, embora também seja. Não só para a mente, tampouco. Ainda não sabia disso naquele agosto ventoso, quando procurei uma guia improvisada e fui em direção a um novo objetivo, difíceis que são as coisas novas, e também a um desconhecido que correria comigo. Um encontro em uma terça-feira com cara de qualquer. Uma faísca de possibilidade de repente acesa no ar gelado.
O cheiro e os sons do mangue que sempre vão me lembrar aquelas primeiras noites. Meu corpo tentando aprender estranhos movimentos novos. Inclusive o mais complicado, ainda hoje, o movimento de confiar. A respiração descompassada, os metros que nunca tive noção de quanto duravam. A cidade em conjunto se preparando para a noite. Os carros seguindo para longe, as pessoas indo para casa e nós em direção ao próximo quilômetro sofrido. E o fogo, ainda pequeno, uma promessa. “Depois que parece que você vai morrer, fica tudo bem”, garantia o guia. Eu sorria, sem saber muito bem.
A fagulha no peito crescendo com o vento e o ato conciente de calçar os tênis, apesar dos receios e obstáculos reais ou imaginados. O guia que comemorou cada pequena conquista boba como se fosse maior que o próprio momento de uma quinta-feira aleatória. Talvez fosse. Foram nossas conquistas. O primeiro quilômetro sem parar transformou a fagulha em labaredas um pouco mais consistentes sem que eu sequer percebesse, ao mesmo tempo em que eu começava a aprender a ser constante. Porque a corrida é exigente, lembro. Mas demorou um pouco mais para eu perceber o quanto.
Eu sempre me envolvo muito com as coisas e correr foi mais uma delas, mas não acho que foi a toa. Correr era a motivação. Eu, alguém que nem sabia o quanto precisava de uma. Então corremos, como quem não leva aquilo tão a sério. Mas as labaredas arderam em chamas dentro e fora de mim. Porque a corrida é exigente. Exige do seu tempo, dos hábitos, e te força a escolher. Exige mudanças e faz barganhas. Ocupa um espaço novo. É fogo. No peito, nas pernas e no coração. A linha de chegada tem um calor único. As linhas de chegada diárias, também.
A força devastadora do fogo que abriu novos caminhos e me levou a novos lugares. Depois me fez entrar em cada um deles, mesmo com medo. E mesmo sendo um esporte solitário, me apresentou tantas pessoas. Me fez encarar partes de mim, boas e ruins também. Desde o meu lado corajosa até a vontade imensa de desistir. Mas o bailar das chamas era bonito demais, então recomeçei todas as vezes. As mãos aquecidas tocaram outras partes de mim. Os desafios deixaram pequenas queimaduras aqui e ali. Mas corrida também é cura. E a luz do fogo, para onde sempre voltar, guia. O caminho é longo demais para não se ter um norte.
A necessidade é um incêndio difícil de conter, MAS SÓ QUEIMA A NÓS MESMOS. Agora, longe da companhia das ruas, observo o conforto do tremular da chama na palma das minhas mãos, como se eu segurasse um pequeno e frágil lampião. Temo que ela se apague, às vezes. Até mesmo quero que ela se apague em outras. Há dias em que sua existência parece estar a distância de um tentador sopro. Distanciamento. Mas sei que não é tão simples, pois o fogo nasce saltitante nos meus dedos e cresce tremendamente fácil. Precisa só de um pensamento solto, o fantasma das sensações, uma memória boa para sentir de novo o crepitar da necessidade e do desejo, chamando e sussurrando promessas, que incendeiam o meu corpo e dizem que é apenas um intervalo longo demais. Afinal, a corrida é exigente e o fogo, ah, o fogo já sabe muito bem o seu lugar.

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