Eu e o trapézio voador

Um dos meus maiores encantamentos sem explicação da vida sempre foi o circo. As cores, a música, a atmosfera cheia com tantas possibilidades, mas principalmente a pura beleza dos corpos em movimento. Dentre meus flertes com os malabares de contato e as acrobacias diversas, uma vontade latente é o trapézio de voo. Parece ter algo de particularmente maravilhoso em se lançar ao encontro do vazio dessa forma. Longe de ser magia, envolve técnica, o que talvez me atráia ainda mais.

Eu, planejadora das urgências que sou, também quero agarrar o inesperado das emoções ainda não descritas entre os dedos firmes com os quais me seguro no mundo. Mas me seguro. Porque habito o espaço dessa contradição entre o arrepio e as certezas que acho que tenho sobre tudo. Uma parte de mim calcula, mede, compara. Experimenta as possibilidades antes que aconteçam, para se sentir teoricamente preparada quando e se qualquer delas acontecer. Finge que pode traçar e antecipar um caminho firme o suficiente para estar sempre pronta. Depois tenta. E tento a cada vez, mesmo sem perceber. São caixas, regras e sentidos que não sei como construí. Mas ainda os sigo.

Então tem o circo. Essa bagunça que chega, barulhenta demais, e chacoalha todos os desejos que às vezes se aquietam em mim. Esse fascínio que foge a definições e motivos e é, em si, uma fuga que acelera meus batimentos. A sensação de que eu posso ser parte de algo tão bonito. Que eu e meu corpo podemos fazer isso também. Que coisas tão incríveis podem ser feitas e sentidas. Essa sensação pura e quase infantil. Essa é a parte de mim que sente. E como sente. A parte que se apaixona profundamente e, livre, não acha que precisa entender.

Essas duas partes de mim se encontram e dançam juntas em torno do sonho do trapézio voador. Tem meu lado que considera cada detalhe e pesquisa a internet inteira a caça de qualquer mínima informação disponível. E se irrita por não ter mais. Desenha cenários. Faz previsões. Quer com urgência. Daí tem a emergência da entrega. Aquela que espera uma boa surpresa a cada esquina. O lado terrivelmente ansioso para sair correndo, subir 10 metros e finalmente se atirar no nada do sentir. Onde nada mais importa. E nunca importou mais ao mesmo tempo. A força, o treino e a confiança do processo de se tornar alguém capaz de algo que pra mim é tão grande. A sensação de que eu posso controlar meu corpo para ele poder voar parece gigante. Eu e o trapézio voador. E talvez tudo isso só signifique que eu não vejo a hora de poder pular.

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