O seu olhar

Minhas mãos se movem no automático, encontrando aos poucos um ritmo próprio entre pacotes e garrafas a serem limpas nessa abafada manhã. O litro de álcool gel descansa no chão ao meu lado, parte gritante das novas rotinas que a pandemia nos impôs. Minhas mãos ganham velocidade, mas meu corpo se retrái. Mesmo de costas, posso sentir o seu olhar como algo quase físico. Em meio a conversa da qual não participo, lá está ele, me atravessando outra vez.

seus olhos não me veem. Eles passam por mim. Escorregam pelo meu corpo e meus movimentos, a procura. Mas não me veem. Procuro o que falta ser limpo. Mas, ao mesmo tempo, seus olhos encontram todas as minhas faltas. Falhas. Caçam cada pequena suposta dificuldade e justificam imediatamente o que você já achava. O que você acha que sempre vai faltar em mim se destaca nesse pedaço de tempo meramente cotidiano. Não deveria, mas pesa. A sua pena, densa de tantas coisas, pesa em mim. Logo em mim. Não é irônico?

Me vejo tentando fazer tudo certo, como se precisasse te provar algo. Parecer menos perdida. Menos vulnerável sob o seu olhar cheio de falsas certezas. Você não sabe nada sobre mim, lembro. Racionalizo. Mas também sinto. Sinto tanto. O espaço amplo me faz precisar procurar. Entre novos ajustes, nos ajudamos. Falta de costume. Você oferece algumas instruções que também me ajudam. Sorrio. Mas você logo dispara: “coitada.” Sinto raiva. Engulo uma resposta bem grosseira que você merecia. Não preciso dizer que a sua pena é inútil e ofensiva. Eu só queria lavar minhas compras. Seu tom fala do que eu não consigo, mas simplesmente continuo.

Continuo limpando. A conversa também continua. Ligo a água para lavar as verduras. Me molho. Penso sobre o hábito de não receber ajuda. Engulo minha indignação com esforço, mas não o seu segundo “coitada.” Hoje sei que não me pertence. Demorou. Também sei que o seu olhar em mim é bem mais sobre as suas próprias ideias do que sobre qualquer coisa que eu possa fazer na área da minha casa ou em qualquer outro lugar. Demorou. E doeu. Ainda dói. Doeu perceber que algumas pessoas nunca vão me ver de verdade. E não importa o que eu faça. Não importa. Tudo bem.

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