Temperos

Seguro o cabo da panela com a mesma força com a qual já tive que segurar meus medos. Às vezes, mexendo uma coisa qualquer, ainda me surpreende não ter mais que segurar. Ou não ter mais o que segurar, talvez. Não que eu não tenha medos. Só que alguns deles assumiram outros sentidos. Assim como os sentidos que a massa assume nas minhas mãos maravilhadas por serem capazes de produzir algo totalmente novo.
Cozinhar é um pouco sobre aprender a sentir. Mais do que isso, abrir espaço para o sentir, como é natural. O problema é que tanta coisa fica na frente. E a inércia só produz mais distância. Porque experimentar às vezes é tão difícil que parece um grande movimento. Quando, na verdade, pode ser tão simples quanto permitir que o cheiro me diga se foi o suficiente. Permitir que as pontas dos meus dedos sintam se o ponto parece certo. Chega um momento que a ilusão de que tudo pode ser quantificado e detalhado e explicado simplesmente deixa de caber na realidade. E as receitas não podem tomar as nossas decisões. O que é descobrir o que gostamos senão experimentar?
O calorzinho do fogo no meu pulso, quase reconfortante, e o cheiro bom que perfuma a casa me fazem pensar sobre os caminhos (e caminhantes) que nos levam para perto das coisas que sempre pareceram distantes. Tão distantes que, quase, não possíveis. E os novos gostos que surgem na minha língua, de sabores que vem de poder escolher. Experimentar é um exercício diário. Os sons também são novos e a certeza de aceitar não ter certezas categóricas. E tudo bem, porque nem o erro é definitivo. Por mais que pareça e a minha voz interna insista em dizer que é. Só que a voz que preciso ouvir não é essa.
Sentir tudo com os dedos como sinto as mãos que seguram as minhas. A sensibilidade do toque que me conecta com o momento e o estar. Ouvir o sussurro da inspiração e deixar correr pelo meu corpo tal qual arrepio que não se contém. Ouvir a aproximação da confiança que tanto distancio de mim, mais perto. E soltar. Entender quando o medo cair aos montes ou pouquinhos e deixar tudo amargo. Ainda assim, sentir. Sentir fundo o cheiro e o gosto de diariamente me alimentar com o meu próprio tempero.

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