Sonhos pandêmicos

“Pai”, eu penso. Essas três letras que há algum tempo contém em si milhares de quilômetros, mas que agora se manifestam bem do meu lado nesse carro em movimento. Embora não pareça, isso me atordoa um pouquinho. Não mais do que levar você comigo para fazer o que gosto. Essa ausência tão presente. Essa presença tão repleta de significados e amor. Porque agora não é mais você que me leva, não deixo de perceber. Mas crescer não é essa espécie de troca de papéis? Talvez a vida inteira seja.

A máscara no meu rosto mostra que não chegamos ao final dessa grande tragédia. Só há um doloroso durante. Tão acostumada que nem sinto mais a diferença. O que também dói. Mas estamos juntos, pai. Tudo está bem por agora no nosso pequeno mundo em movimento. Tudo como uma espécie de antes de que nos lembramos muito bem. A cidade que nunca compartilhamos passa em borrões em direção ao fim de outra espera. A corrida. E eu lembro por nós dois.

Estou devidamente mascarada de pff2, devidamente acompanhada de tantas versões de você. A caminho. E sem tênis, percebo de repente. Meu lado sempre pronto para achar soluções metralha pensamentos em segundos, mas desisto rápido. É desesperador chegar tão perto mais uma vez. Também é uma sensação conhecida. Mas o dia está lindo. Ensolarado e fresco ao mesmo tempo. E chegamos. Tantas pessoas queridas, conversas e brincadeiras. Quase um lugar a parte de onde estivemos nos últimos longos meses. É quase como se a tragédia não pudesse chegar aqui. De alguma forma, sei que isso também é uma ilusão.

Encontro a grama, essa superfície macia e estável de onde senti tanta falta todos os dias em que estive longe. Estou sozinha. Meu corpo é atraído pelo chão, que me acolhe. Meus braços e pernas me erguem de alguma forma em um cachorro olhando para baixo. E estou bem, apesar. Não sei onde você está, pai. Um amigo se aproxima e fala comigo, brincamos e sorrimos. Minhas pernas parecem leves o suficiente para eu levantá-las do chão. Brinco um pouco com isso. Sinto as mãos desse amigo nos meus tornozelos, gentis e firmes, me estabilizando em uma quase parada de mão em que o mundo vai lentamente virando de cabeça para baixo. Então acordo. Mas ainda sonho.