Voltar

Sentir que as minhas pernas estranham o movimento e a distância entre os dias em que elas se habituaram a percorrer os quilômetros da cidade como velhos conhecidos e a quase imobilidade desse agora que se prolonga por tempo demais. É curioso como mesmo aquilo que amamos pode se tornar estranho se distante o suficiente. E, quanto mais distante, mais assustadoramente fácil estar distante. É preciso segurar firme. Agarrar e não deixar a vontade ir. Manter por perto, bem perto. Porque voltar exige principalmente firmeza.

Ouvir os sons cotidianos, as pessoas e suas vozes, o trânsito de carros e bicicletas e tantas vidas compartilhando um espaço durante segundos ou minutos de um domingo qualquer. Sentir o vento e os cheiros familiares como uma parte faltante do próprio corpo que volta para o lugar e, ao mesmo tempo, como algo imensuravelmente novo e maravilhoso. Porque agora tudo é novo outra vez. É como descobrir o que já conheço. Voltar para uma espécie de casa convertida em novidade. O abraço da cidade me aconchega nesse fim de tarde.

O pensamento busca um ritmo para seguir. O corpo também. Me sinto desajeitada, ainda relutando em me soltar. As pernas pesam. O peito pesa. Mas também fica um pouquinho mais leve a cada metro que deixamos para trás. Abrir espaço. Largar os pesos pela calçada a fora, mesmo que muitos insistam em permanecer. Pensar no processo. É durante que as coisas acontecem. Mesmo quando me contenho e busco pelas faltas.

Respiro fundo NO LIMITE DA MÁSCARA. Penso nas tantas pessoas que já seguraram a outra ponta dessa guia que agora se encaixa novamente nos meus dedos, reconfortante como se nunca tivesse estado longe. Tanta história foi construída através desse singelo pedaço de corda costurado com carinho. Lembro das vozes e dos incentivos, enquanto tento não pensar em parar. Sinto que voltei um pouco mais. Não quero estar longe. Não sei se já quis. A parceria, ao mesmo tempo nova e antiga. Correr e compartilhar. Somos imensamente mais do que esse treino, mas ao mesmo tempo tudo o que temos agora surge de jeitos únicos e impulsiona o caminho das descobertas de como fazer nossos corpos se moverem na sintonia dos passos e braços e tênis batendo no chão tal qual um só batimento cardíaco.

A voz que me tranquiliza é a mesma que me puxa e empurra, quando necessário. O corpo tem suas próprias razões. Mas eu também tenho as minhas e sei que voltar é um processo. Assim como confiar. Assim como correr e, principalmente, correr junto. E, por mais que mil e uma outras coisas existam e insistam, hoje eu escolho acreditar. Diante da imensidão desse céu finalmente desimpedido a cima da minha cabeça, quero acreditar no processo. E na força dos retornos e começos. Porque, afinal, é preciso voltar.