Encontros

O encontro do meu corpo com o chão ausente. Ausência, mas não desencontro. Ainda não, ao menos. Mas mesmo assim, em alguns dias igualmente desencontrada. O gelado do piso realça o meu desejo por grama e areia e por finalmente não estar mais entre quatro e tantas paredes. Fingir que não sinto saudade o tempo todo porque se me permitir sentir talvez não sobre mais espaço para nada. E preciso demais de espaço agora.

Ansiar pelo estrondo do encontro, mas caminhar quase deliberadamente na direção contrária até estar a uma distância segura porque encontrar, encontrar de verdade, exige uma energia que eu preciso para coisas mais básicas, como levantar em mais uma manhã gelada e sentar de novo na frente do computador para “encontrar” as pessoas entre aspas e telas. Mas ir embora também. E o caminho de volta é algumas vezes mais árduo. Só que quando parece não restar mais nada, ainda obrigatoriamente me encontro comigo no final do dia e nos momentos de silêncio que não consigo preencher. E como me esforço. Talvez me esforce demais.

Minha palma toca o chão frio. Concreto. Confiável. Minha mente busca motivos. Múltiplos. Fugidios. Como ficar imóvel se aqui dentro tudo é movimento? Talvez seja isso que eu precise, aprender a aquietar. Mas os pensamentos são vozes que me falam coisas alto demais. Silêncio é encontro, mas nem sempre possível. Nem sempre agradável também. Fuga.

Faço força para levantar do jeito certo. É o esforço físico do corpo que acalma meus anseios e ajuda o que não importa a desaparecer. Apenas no movimento encontro esse tipo único de foco. Um outro encontro, então. Mais íntimo. Meu rosto repousa no chão. As urgências repousam na respiração serena. Um pouco mais. Tudo bem ser turbilhão, às vezes. E buscar ser calmaria. Mesmo quando ambos se confundem e me confundem.

Distraída da vigília, não ouço. Meu corpo se concentra em manter os ângulos corretos e os músculos certos em atividade e o fôlego em dia e os braços sem empurrar o chão por nenhum motivo racional. Mas é ser muito racional que me afasta. Por isso, encontro. No não tentar. Quando me ocupo o suficiente para sentir de novo o puro instinto que percorre as minhas pernas e o meu peito e a vontade de apenas alcançar um pouquinho mais e depois de novo. A falta e o desencontro comigo, penso. É não deixar o meu corpo falar mais alto que a mente, até a doce fronteira que me aquieta os desejos e as urgências não urgentes que rugem na minha garganta e no meu peito retumbante e, agora ronronam de leve, no abraço do encontro. Finalmente, me abraço.